quarta-feira, 4 de novembro de 2009

Posts Atrasados III - Resenha Arquitetos na Contramão

Texto: ARANTES, Pedro Fiori.Arquitetos na contramão.In. Arquitetura Nova: Sérgio Ferro, Flávio Império e Rodrigo Lefévre, de Artigas aos Mutirões. São Paulo, Ed. 34, 2002.

SOBRE O AUTOR
Pedro Fiori Arantes, formado na Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo, produziu investigação sobre as políticas urbanas do Banco Mundial e do Banco Interamericano para a América Latina. É autor do livro Arquitetura Nova (Editora 34, 2002) e organizou a coletânea de ensaios críticos do arquiteto Sérgio Ferro, Arquitetura e trabalho livre (CosacNaify, 2006). É coordenador da organização não-governamental usina que presta assessoria técnica em projetos de habitação.

SOBRE A OBRA

O texto fala a respeito da relação entre arquitetura e comunidade, dando ênfase ao período da ditadura militar. Com o golpe de 1964, vários arquitetos e estudantes da FAU passaram a voltar suas atenções para os problemas que a cidade enfrentava. Com isso, houve uma aproximação com as camadas populares. Enquanto isso se lia Marx, em busca de um entendimento dos mecanismos de produção da cidade capitalista. Inaugura-se em 1977 o Curso integrado de projeto e Desenho Industrial, curso que buscava conduzir o estudante de arquitetura à favela como sujeito produtor de projetos, arquiteto capaz de imaginar alternativas de intervenção. Buscava-se democratizar a arquitetura, buscando novas técnicas para o caso específico (favelas), com novas alternativas mais acessíveis de construção, em oposição à produção em massa. A relação entre arquiteto e população era direta, o que fazia nascer uma nova concepção acerca do “produzir arquitetura” na época.
A busca de materiais e técnicas alternativos mais viáveis para a construção voltada para camadas mais populares teve percalços por parte da população também. No Laboratório de Belas Artes, que tiveram a mesma iniciativa, os arquitetos e estudantes enfrentaram hostilidade por parte da população, incrédula com a viabilidade da mistura entre cimento e terra. Porém, um caso que deu certo a ser citado foi o do engenheiro Guilherme Poli, que após fazer um filme sobre as cooperativas em Montevidéu, usa do apelo visual para convencer a iniciativa popular. Guilherme buscava discutir com a população, por meio de maquetes, as melhores alternativas de construção para aquela determinada demanda. Após falecer m um acidente de carro de 1981, a COHAB decide retornar a iniciativa, com engenheiros e arquitetos que passaram a conduzir as obras de maneira autoritária contratando empreiteiras.
Porém, aos poucos, via-se que o povo resistia a mudanças mais profundas, satisfazendo-se apenas com resoluções mais isoladas, no caso em estudo a reivindicação de uma casa própria. Assim, observa-se que o papel do arquiteto é questionar idéias pré-concebidas, na busca por abrir novas possibilidades na resolução de problemas urbanos. Porém, com o tempo, os mutirões deixaram de ser valorizados em virtude do programa construção de habitações populares com intermediação de construtoras e compra e venda de terras.
Observou-se que no mutirão autogerido o mutirante é ao mesmo tempo autor, produtor e consumidor. O mutirão funciona como uma ação coletiva deliberada, diferenciando-se tanto da alienação do trabalho assalariado quanto do trabalho destituído de invenção da autoconstrução. Nas cidades, faz-se necessário um regulamento do mutirão. No começo da obra há a divisão de equipes, de forma a atender às diversas demandas da construção. O trabalho amador é também a melhor forma de como se manifesta o esforça coletivo. Deve-se destacar o trabalho das mulheres, que, por não ter a obrigação de serem pedreiras, são a melhor encarnação do trabalho amador. Ela produz com capricho, o devido esmero com a casa que irá abrigar sua família.

APRECIAÇÃO CRÍTICA

O texto nos faz refletir sobre três questões principais: a) será que a arquitetura que vemos hoje, que repete padrões e maximiza as horas de trabalho dos pedreiros está colocando a própria corda no pescoço com esse processo (praticamente) irreversível de mecanização do trabalho?; b) O arquiteto que se forma hoje deve buscar formas alternativas de atuação, uma vez que o setor que nós estamos trabalhando atualmente (na maior parte construções para a elite) está cada vez mais saturado, e até mesmo, sem sentido de ser?c) Será que não é a hora pra voltar nossos olhos para a camada da população tão mais evidente quanto ignorada (camadas populares), e buscar novas maneiras mais econômicas e sustentáveis de construir para as mesmas? São coisas que merecem ser analisadas para quem realmente quer dar algum sentido para a profissão em estudo.

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