domingo, 8 de novembro de 2009
quarta-feira, 4 de novembro de 2009
Posts Atrasados III - Resenha Arquitetos na Contramão
SOBRE O AUTOR
Pedro Fiori Arantes, formado na Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo, produziu investigação sobre as políticas urbanas do Banco Mundial e do Banco Interamericano para a América Latina. É autor do livro Arquitetura Nova (Editora 34, 2002) e organizou a coletânea de ensaios críticos do arquiteto Sérgio Ferro, Arquitetura e trabalho livre (CosacNaify, 2006). É coordenador da organização não-governamental usina que presta assessoria técnica em projetos de habitação.
SOBRE A OBRA
O texto fala a respeito da relação entre arquitetura e comunidade, dando ênfase ao período da ditadura militar. Com o golpe de 1964, vários arquitetos e estudantes da FAU passaram a voltar suas atenções para os problemas que a cidade enfrentava. Com isso, houve uma aproximação com as camadas populares. Enquanto isso se lia Marx, em busca de um entendimento dos mecanismos de produção da cidade capitalista. Inaugura-se em 1977 o Curso integrado de projeto e Desenho Industrial, curso que buscava conduzir o estudante de arquitetura à favela como sujeito produtor de projetos, arquiteto capaz de imaginar alternativas de intervenção. Buscava-se democratizar a arquitetura, buscando novas técnicas para o caso específico (favelas), com novas alternativas mais acessíveis de construção, em oposição à produção em massa. A relação entre arquiteto e população era direta, o que fazia nascer uma nova concepção acerca do “produzir arquitetura” na época.
A busca de materiais e técnicas alternativos mais viáveis para a construção voltada para camadas mais populares teve percalços por parte da população também. No Laboratório de Belas Artes, que tiveram a mesma iniciativa, os arquitetos e estudantes enfrentaram hostilidade por parte da população, incrédula com a viabilidade da mistura entre cimento e terra. Porém, um caso que deu certo a ser citado foi o do engenheiro Guilherme Poli, que após fazer um filme sobre as cooperativas em Montevidéu, usa do apelo visual para convencer a iniciativa popular. Guilherme buscava discutir com a população, por meio de maquetes, as melhores alternativas de construção para aquela determinada demanda. Após falecer m um acidente de carro de 1981, a COHAB decide retornar a iniciativa, com engenheiros e arquitetos que passaram a conduzir as obras de maneira autoritária contratando empreiteiras.
Porém, aos poucos, via-se que o povo resistia a mudanças mais profundas, satisfazendo-se apenas com resoluções mais isoladas, no caso em estudo a reivindicação de uma casa própria. Assim, observa-se que o papel do arquiteto é questionar idéias pré-concebidas, na busca por abrir novas possibilidades na resolução de problemas urbanos. Porém, com o tempo, os mutirões deixaram de ser valorizados em virtude do programa construção de habitações populares com intermediação de construtoras e compra e venda de terras.
Observou-se que no mutirão autogerido o mutirante é ao mesmo tempo autor, produtor e consumidor. O mutirão funciona como uma ação coletiva deliberada, diferenciando-se tanto da alienação do trabalho assalariado quanto do trabalho destituído de invenção da autoconstrução. Nas cidades, faz-se necessário um regulamento do mutirão. No começo da obra há a divisão de equipes, de forma a atender às diversas demandas da construção. O trabalho amador é também a melhor forma de como se manifesta o esforça coletivo. Deve-se destacar o trabalho das mulheres, que, por não ter a obrigação de serem pedreiras, são a melhor encarnação do trabalho amador. Ela produz com capricho, o devido esmero com a casa que irá abrigar sua família.
APRECIAÇÃO CRÍTICA
O texto nos faz refletir sobre três questões principais: a) será que a arquitetura que vemos hoje, que repete padrões e maximiza as horas de trabalho dos pedreiros está colocando a própria corda no pescoço com esse processo (praticamente) irreversível de mecanização do trabalho?; b) O arquiteto que se forma hoje deve buscar formas alternativas de atuação, uma vez que o setor que nós estamos trabalhando atualmente (na maior parte construções para a elite) está cada vez mais saturado, e até mesmo, sem sentido de ser?c) Será que não é a hora pra voltar nossos olhos para a camada da população tão mais evidente quanto ignorada (camadas populares), e buscar novas maneiras mais econômicas e sustentáveis de construir para as mesmas? São coisas que merecem ser analisadas para quem realmente quer dar algum sentido para a profissão em estudo.
Posts atrasados 1 - Resenha Rem Koolhaas
Texto: KOOLHAAS, Rem. Conversa com estudantes. Barcelona: Ed. Gustavo Gilli, 2002. Pag. 21-29.
SOBRE O AUTOR
Rem Koolhaas nasceu na Holanda, em 1944, e estudou Arquitetura em Londres. É um nome de referência incontornável na arquitetura contemporânea, autor de uma obra marcada por inúmeras distinções, como o Pritzker Prize e o Prémio de Arquitetura da União Européia Mies van der Rohe.
Koolhaas criou em 1975 o OMA (Office for Metropolitan Architecture), em Rotterdam, gabinete que, em 199, apresentou a proposta vencedora da Casa da Música do Porto.
Em 2007 foi atribuído à Casa da Música o prêmio do Instituto Real dos Arquitetos Britânicos (RIBA), com o júri a classificar o edifício de "intrigante, inquietante e dinâmico".
SOBRE A OBRA
O livro reúne uma conferência e um seminário ministrados na Rice University School of Architecture, onde Koolhaas discute as implicações urbanas e arquitetônicas da construção "extra-grande" usando três exemplos de projetos de grande escala: o Terminal Marítimo de Zeebrugge (Bélgica), a Biblioteca da França em Paris e o ZKM Centro de Arte e Tecnologia de Mídia Karlsruhe (Alemanha). O texto do seminário reúne de uma maneira concisa e acessível às principais teorias de Koolhaas e OMA.
O trecho em estudo refere-se especialmente aos projetos da Biblioteca Nacional de Paris. Trata-se de uma combinação de cinco edifícios separados, onde um funcionaria como uma cinemateca, outro seria uma biblioteca para aquisições recentes, outro seria para referências, um para periódicos e uma biblioteca científica; o que significa uma diversidade enorme de usos. O edifício deveria ser baixo, porém de proporções gigantescas. Koolhaas e sua equipe pensaram em dois componentes antagônicos, onde a articulação das suas partes principais seria uma ausência de construção. Ou seja, a área de acervo seria como um enorme cubo no qual os espaços públicos seriam simplesmente escavados. Até aí, decidiram que a planta seria quadrada, que haveria nove elevadores que atravessariam cada vazio e que as diferentes exigências de luz determinariam as características das áreas públicas. Todo o edifício funcionaria como uma viga apoiada sobre paredes de dois metros de espessura, que alternavam entre espaços de doze metros, por onde passariam todas as instalações. Assim o primeiro pavimento seria aberto, destinado ao recebimento de visitantes. As caixas dos elevadores teriam painéis eletrônicos que indicariam o destino de cada elevador. A biblioteca para aquisições recentes seria horizontal, a cinemateca seria um espaço inclinado, a biblioteca de referência seriam uma espiral que conectaria os cinco pavimentos, a biblioteca de catálogos teria espaço oval fazendo interseção com a fachada e o edifício teria uma enorme janela voltada para a cidade de Paris.
REFERÊNCIAS DO AUTOR
A premissa que Koolhaas teria de lidar seria um prédio baixo, porém de proporções gigantescas, com um eixo partindo de algum local do terreno prolongando-se pelo Sena em uma ponte de pedestres, com cinco funções específicas que se diferenciariam no espaço desse único pódio. O prédio surgiu como uma reação às normas de arquitetura existentes que resolve tudo pela invenção da forma. Sua intenção era de fato tentar inventar arquitetonicamente.
APRECIAÇÃO CRÍTICA
Na Biblioteca Nacional da França a abordagem feita por Rem Koolhaas, é quase artística, demonstrando uma atitude crítica e não convencional em relação ao programa. “Em um momento em que a revolução eletrônica parece prestes a dissolver tudo o que é sólido - a eliminar toda a necessidade de concentração e concretude física – parece absurdo imaginar a suprema e definitiva biblioteca.”Ele assume uma forma muito diferente, a de criar edifícios que encapsulam a “cultura de congestionamento”, por romper com a natureza genérica modular da arquitetura moderna.
“A ambição deste projeto é livrar a arquitetura de responsabilidades que ela não pode mais sustentar e explorar essa nova liberdade agressivamente. O que sugere que, liberada de suas antigas obrigações, a função última da arquitetura será a criação de espaços simbólicos que acomodem o persistente desejo de coletividade.”



